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13 de outubro de 2013

Maconha Pediátrica


No Brasil, a maconha (ou Cannabis) é ilegal. Em 17 estados americanos, no entanto, até criança pode obter a substância.

Claro, com restrições. Mas pessoas com menos de 18 anos que tenham uma condição de saúde limitadora (uma doença com sintomas graves ou que não pode ser curada) podem receber prescrição de maconha medicinal.

O tema voltou à debate nos EUA recentemente porque o estado de Massachusetts em breve será mais um que vai permitir a maconha medicinal a crianças.

Só que a Academia Americana de Pediatria se opõe ao uso da droga por menores de idade, porque isso não foi clinicamente testado (e nem deve ser no futuro próximo, porque é eticamente bastante complicado sujeitar crianças ao uso de uma substância ilegal). O tratamento também não foi aprovado pela Administração de Drogas e Alimentos dos EUA.

Ainda assim, nesses 17 estados americanos e em Massachusetts, crianças vão poder usar a terapia alternativa, mas precisarão de autorização por escrito de dois médicos diferentes, um dos quais deve ser um pediatra, e o consentimento dos pais.


No Brasil e no mundo

EUA, Canadá, Reino Unido, Holanda, França, Espanha, Itália, Suíça, Israel e Austrália são alguns países em que o uso da maconha para fins medicinais é permitido ou parcialmente permitido (geralmente, o cultivo domiciliar e o consumo são liberados perante receita médica). Em janeiro desse ano, o senado da República Tcheca também aprovou o uso medicinal da maconha, que vêm ganhando força em várias partes do mundo.

Na Holanda, onde até o consumo recreativo é liberado, a maconha medicinal só deve ser prescrita como última alternativa para o tratamento de dores crônicas, rigidez muscular e espasmos provocados pelo câncer, náuseas provocadas por tratamentos quimioterápicos, perda de apetite provocada por Aids e anorexia, esclerose múltipla, síndrome de Tourette, mal de Alzheimer, distrofia muscular, fibromialgia, caquexia e esclerose lateral amiotrófica.

No Brasil, a legislação não prevê o uso da maconha para fins terapêuticos. Em maio de 2010, um simpósio científico internacional organizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas discutiu a criação de uma agência nacional para regular o uso medicinal da maconha no país, mas isso ainda não saiu do papel.

A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece que a maconha pode ser medicamento, apesar da proibição da Convenção Única de Entorpecentes, datada de 1961 e assinada por diversos países incluindo o Brasil, mas somente quando as nações oficializam uma agência especial (ou seja, regulam o consumo medicinal) da planta cannabis.


Maconha para criança?

Pode parecer extremamente controverso, polêmico e até bizarro, mas as mães não descartam a possibilidade de usar maconha para tratar seus filhos.

“Eu posso tentar, especialmente se o meu filho estiver com dor”, disse a mãe americana Tonya Rogalski, de West Springfield. “Mas eu precisaria de muito mais informações, faria uma pesquisa e um monte de perguntas para os médicos”.

Algumas das condições para as quais as famílias mais usam maconha medicinal para tratar são autismo, câncer e convulsões.

No caso do americano Zaki Jackson, de 11 anos, a maconha medicinal tem sido uma salva-vidas. Jackson foi diagnosticado aos seis meses de idade com uma forma de epilepsia tão grave que causava até 250 convulsões por dia. Seus pais tentaram 17 medicamentos diferentes ao longo de um período de 10 anos para tentar acalmar suas convulsões, mas nada funcionou.

Até que o médico de Zaki prescreveu maconha. “Somos cristãos”, conta a mãe de Zaki, Heather. “Somos conservadores. E estamos usando maconha medicinal. Apesar do estigma associado a cannabis, eu devia a Zaki pelo menos experimentá-la”.

E deu certo. “Ele não teve quaisquer convulsões após sua primeira dose”, relata a mãe. Nos oito meses desde Zaki começou o tratamento, ele finalmente foi capaz de fazer atividades normais de criança, como brincar em uma balança.

Ano passado, no estado americano de Oregon, Mykayla Comstock, de 7 anos, também passou a usar maconha medicinal para aliviar os sintomas de sua doença: leucemia da célula T, um tipo agressivo de câncer de sangue. A droga ajuda a menina a comer e dormir.

No mês passado, o estado de New Jersey, também nos EUA, aprovou a remoção de algumas barreiras que proibiam crianças de serem beneficiadas pelo programa do governo que permite o uso de maconha medicinal no combate a doenças graves. Muito da aprovação se deveu a comoção geral pelo caso de Vivian, a filha de 2 anos de idade do casal Meghan e Brian Wilson, diagnosticada com síndrome de Dravet, uma forma grave de epilepsia e doença mortal. Os pais da criança disseram que encontraram casos semelhantes no Colorado e na Califórnia onde crianças responderam positivamente na prevenção aos ataques epilépticos, mas não podiam explorar essa opção de tratamento para a filha deles.

Os críticos da maconha pediátrica, incluindo a Academia Americana de Pediatria, argumentam que a prescrição de marijuana para crianças ainda não foi suficientemente testada e os efeitos a longo prazo do uso juvenil são desconhecidos.

Outros grupos, como o Instituto de Medicina Cannabis, afirmam que a maconha pode ser produzida de forma a minimizar suas qualidades psicoativas.

No caso de Zaki, sua maconha foi especialmente criada para ter baixos níveis de THC, a substância psicoativa na droga, mas altos níveis de um canabinoide chamado canabidiol, ou CBD. Embora tanto THC e CBD impactem positivamente sintomas como dor, náuseas e convulsões, a CBD não é psicoativa, ou seja, as crianças que usam esse tipo de maconha não ficam “doidas”.

Ainda assim, alguns especialistas são céticos. A Dra. Sharon Levy, do Hospital Infantil de Boston (EUA), reitera que faltam estudos clínicos. Levy também observa que algumas substâncias que uma dia prometeram curas há muito foram descartadas como ineficazes ou prejudiciais. “Um par de gerações atrás, os médicos recomendavam tabaco como um bom método de relaxamento ou para aliviar o estresse”, diz. “Agora parece inacreditável”.

21 de maio de 2013

Homem usou maconha no combate à câncer no pescoço



Art Cote, 55 anos, é programador de computação na Califórnia, EUA. Em 2010, ele teve câncer no pescoço e, segundo ele, a única coisa que realmente o ajudou foi a maconha. Veja abaixo o seu depoimento ao jornalista Eduardo Szklarz:

Em 2010, saí de férias com minha mulher. Era maio, lindo tempo para a praia. No primeiro dia de viagem, quando eu esperava num bar para almoçar, o telefone tocou. Era meu médico. Ele falou com calma e sem pausas. "Sr. Cote, infelizmente a biópsia deu positivo. Você tem um carcinoma de células escamosas em seu pescoço, que precisa ser retirado imediatamente." Fui operado poucos dias depois de voltar a São Francisco, onde moro. Só que ninguém me avisou sobre as consequências da cirurgia.

Os médicos tiraram o tumor, mas me deixaram com uma dor terrível. Eu quase não podia suportar. Na primeira noite, pedi mais analgésicos à enfermeira. Ela disse que eu já havia tomado minha cota de Tylenol, e que portanto teria de esperar até a manhã seguinte. Passei a noite em agonia. No outro dia, fui apresentado à oncologista, que me passou a lista de prioridades: ressonância magnética, radiação e quimioterapia. Dava para ver que seria um caminho difícil.

Na radioterapia, os médicos cobriram meu rosto com uma máscara para queimar as células cancerígenas da região. Entrei em pânico. Foram 33 dias, cinco dias por semana. Durante os dez minutos de cada sessão, eu era como uma salsicha dentro de um micro-ondas. Meu pescoço ardia e as dores ficaram ainda mais intensas. E pior: a radiação literalmente queimou minhas glândulas adrenais - responsáveis pela produção de hormônios esteroides, fundamentais para o funcionamento do corpo. Passei então a ingerir pílulas diárias de esteroides para continuar vivo, que provocaram enjoos e um enorme mal-estar. Era muito difícil comer e dormir. Os médicos me receitaram vários remédios, como a metadona, mas quase não faziam efeito - eu me sentia cada vez pior.

Há cerca de um ano, meus filhos me aconselharam a usar maconha. Por acaso, eles trabalham com maconha medicinal em São Francisco e me recomendaram a droga para reduzir as dores e a ansiedade. Além do tratamento do câncer, a droga tem sido usada para aliviar sintomas de doenças como a aids, artrite, esclerose múltipla, glaucoma e epilepsia. Meu médico me deu a prescrição. Hoje, posso viver como uma pessoa normal. A maconha não eliminou a dor, mas reduziu-a bastante. Numa escala de 1 a 10 (sendo 10 a pior), sinto uma dor de grau 7 quando não uso maconha. Com ela, a dor diminui para 4 ou 5. Consigo comer e dormir a noite toda.

Consumo a erva geralmente na forma de biscoitos da Auntie Dolores, uma empresa que fabrica produtos comestíveis feitos com maconha medicinal. Isso evita os efeitos colaterais do fumo. Consumo de 4 a 5 mg de canabis de manhã para poder trabalhar. À noite, tomo outros 9 mg para dormir. Felizmente, como não há risco de overdose, meus médicos não estipulam a quantidade. Eu mesmo ajusto a dose até sentir o efeito. E continuo tomando remédios, como a hidrocortisona (esteroide similar ao hormônio produzido pelas adrenais) e a fludrocortisona (para controlar o sódio).

O uso da maconha para fins médicos é legal em apenas 18 dos 50 Estados americanos. E poucos deles realmente aplicaram a lei, como é o caso da Califórnia. Assim, mesmo com prescrição médica, você pode ter muita dificuldade para obter maconha medicinal nos EUA. Eu tive a sorte de viver em São Francisco. Não sei como seria se não tivesse sido assim. Com todos os remédios disponíveis, a única coisa que realmente me ajudou foi a maconha. Ela trouxe minha vida de volta.

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